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sábado, setembro 03, 2011

há uma estrela de olhos negros, procurando os seus....


Moinho



[ benfield_graceful]
Na face morena os olhos negros carregados de brilho e a pele sardenta, tanto quanto ele imaginava fossem infinitas as sardas daquele corpinho esguio e cheio de graça, onde se perdia – com o seu olhar de menino-moço.
Ela maliciosa; queria a toda pompa, atraí-lo; o que não era tão difícil, era antes um fascínio, aquele sorriso encantador sobejando-lhe o íntimo.
Devaneava-se, esperançoso.
O coração batia-lhe forte; mais menino que moço. Ela, mocinha. À noite, na cozinha, sua mãe arrebentava pipocas numa grande panela. O calor do fogão de lenha era como as labaredas saindo daqueles olhos fulminantes; que colidiam nos seus.
 Comiam pipocas e se comiam de olhos, entre os olhares distraídos dos demais. Melhor nunca ter ido – falava pra si mesmo – porém, mais desejado ela não fosse sua parenta; mas era...
O casarão exibia-se imponente sobre o morro. Ao redor do quintal, via-se o milharal e embaixo o dourado dos cachos de arroz refletindo à luz do sol. Do costado da serra descia um riacho – silenciado pelos ruídos do dia e mais murmuroso ao cair da noite –, como se as águas acordassem, quando todos fossem dormir. .
O sossego da noite trazia-lhe o enternecer do ruído de um moinho lá fora; e ele não conseguia dormir, imaginava-a no quarto ao lado; apenas uma parede que, malicioso ele escalava, no pensamento.
Os cães latiam no terreiro. O relógio de parede, a cada instante, lembrava a sua insônia – como seria fugir com ela, pensava, ou antes, depressa, fugisse dela. Nunca mais voltasse ali, naquele casarão alto e misterioso.
O murmúrio do moinho impunha volição à sua alma; no moinho os giros da , não paravam. Sentia-se como o próprio milho na moenda, se tornando fubá – os anseios da mente o esmiuçando, como se o transformasse em pó.
O coração o aconselhava a nunca mais voltar ali. Mas qual o quê, nas férias, estava ; e ela, cada vez mais bonita: os seios lúbricos, os lábios grossos, o corpo de moça-feita; o brilho dos olhos cada vez mais intensos, acolhendo os seus.
O milho assado, recém-saído do borralho.
Ela mordia a espiga com gosto de cobiça; degustava-a com os movimentos volúveis e maliciosos dos lábios. E ele se imaginava naquela boca: sugando a própria saliva dela. E trocavam entre si, carícias de língua. E um abraço de nudez.
O lugar, o casarão e o moinho compunham-se com ela uma grandeza imensurável de sonhos; sonhos, que ele construíra para si, ingenuamente, naquele início de adolescência. Antes um pouco, de ir embora.
O tempo passou.
Voltou ao mesmo lugar. Lembrava o dia em que fora pela última vez: ela estava noiva. Casaria naquele mês; espojar-se-ia; desencantou-se. Mas os olhos dela, em vez do brilho, marejavam lágrimas – talvez ela não quisesse casar-se; talvez... 
O lugar não era mais o mesmo. Nem ele tampouco era o adolescente de antes. O casarão se desmoronara; agora, erguida no local uma simples casinha. E não havia mais roça de milho; muito menos, arrozal. Somente uma relva bisonha e bois pastando – as garças aos arredores, na esperança do desjejum.
As águas do riacho corriam à toa – passando a revelia pelo que sobrara do moinho; era como, se envelhecido, as paredes caindo, a moenda enferrujada, o moinho nem mesmo quisesse estar ali – fosse apenas o testemunho de um tempo – já há muito existido!
No entanto, havia a impressão de ainda ressoar longínquo e desolador o moinho; tanto quanto badalava triste, na sua memória, o relógio de parede do casarão.
Soube então que ela se fora definitivamente, para o céu. Onde há uma estrela de olhos negros, procurando os seus.
Eternamente.